Leonardo Barreto esteve em Caxias nesta segunda na sede da CIC
O cientista político Leonardo Barreto em entrevista para a Rádio Spaço FM reproduzida nesta terça-feira, 27, avaliou que parte do eleitorado brasileiro optou pela continuidade do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva por considerar que, apesar das críticas à gestão, ela oferece maior previsibilidade. “Uma parte da população disse assim: olha, o Lula me entrega um governo medíocre, mas pelo menos ele é previsível”, destacou. Segundo ele, o voto contrário ao bolsonarismo teve mais força do que a rejeição ao petismo no resultado eleitoral.
Doutor pela Universidade de Brasília (UnB) e sócio da consultoria de risco Think Policy, o especialista também avaliou os desafios que deverão marcar o próximo mandato de Lula. Para ele, o quarto governo do presidente deverá ser o mais difícil de sua trajetória política, principalmente pelas limitações das contas públicas e pela necessidade de negociar com um Congresso Nacional que, segundo ele, terá uma composição mais oposicionista e imporá obstáculos à agenda do Executivo. “O governo Lula 4, que se inicia logo depois da eleição, provavelmente vai ser o governo mais difícil da vida do Lula”, afirmou.
Conforme Barreto, o presidente precisará dialogar com setores que não votaram nele e recuperar a credibilidade para cumprir, ao menos parcialmente, os compromissos assumidos durante a campanha.
Barreto destacou que parte das medidas necessárias deverá ser negociada ainda com a atual legislatura, uma vez que a próxima composição do Congresso tende a dificultar a aprovação de propostas do governo. Outro desafio, segundo ele, será conciliar as promessas eleitorais com os recursos disponíveis, em meio à disputa pelo orçamento público entre Executivo e Legislativo.
Ao analisar o resultado das urnas, Barreto apontou a combinação de fatores que, em sua interpretação, favoreceu a continuidade do governo Lula. Entre eles, citou a ampliação de programas e benefícios durante a campanha, a estratégia de associar uma eventual mudança de governo à perda de direitos sociais e o sentimento de rejeição ao bolsonarismo presente em parte do eleitorado.
Para o especialista, Flávio Bolsonaro teria se aproximado de seu limite de apoio já no primeiro turno, enquanto Lula conseguiu conquistar votos de eleitores que não tinham nenhum dos dois candidatos como primeira opção. Nesse cenário, a rejeição a um dos candidatos e o receio de mudanças nos benefícios sociais contribuíram para a escolha pela continuidade.
O cientista político também criticou o uso de medidas econômicas com objetivos eleitorais. Na avaliação dele, a lógica de disputa baseada no “vale-tudo” amplia os gastos e cria expectativas que os governos podem ter dificuldade de atender após as eleições, comprometendo a confiança nas instituições e a previsibilidade das contas públicas.
Barreto defendeu a criação de mecanismos institucionais para estabelecer limites ao uso de recursos públicos em períodos eleitorais e afirmou que o país precisará discutir novas medidas para fortalecer a responsabilidade fiscal.
Ao abordar o futuro da direita brasileira, o especialista avaliou ainda que, embora o bolsonarismo possa enfrentar novos desafios judiciais e políticos, o movimento contribuiu para a formação de novas lideranças e para a estruturação de uma direita que hoje vai além da figura de Jair Bolsonaro.

